quarta-feira, 24 de junho de 2009

ANGUSTIA X FANTASIA

Por que algumas pessoas precisam da angústia para viver? É uma realidade que presencio na vida, no dia a dia, no consultório. Em um exemplo bem banal, podemos notar que o sofrimento é o que mantém audiência nas novelas, nos filmes. A mocinha e o vilão das novelas tem que criar uma situação tensa por mais de seis meses para segurar o público, a felicidade não prende, não mantém a fidelidade de quem assiste.

A angustia é tão inerente ao ser que algumas pessoas resistem a terapia por não saber o que seria delas se aniquilassem esse sentimento. O que será de mim sem a minha depressão? Inacreditável, mas isso existe. Muitas não assumem. Algumas, quando vêem que algo está se resolvendo para diluir a angústia, não aparecem mais no consultório, somem ou dão uma desculpa banal para finalizar as sessões. Há o boicote também de dar pra trás quando tudo começa a dar certo. Isso tem a ver também com a autopunição, auto-estima baixa, não se achar merecedor.

A felicidade não é um estado constante, existem momentos felizes, mas claro que sempre estamos às voltas com as mazelas do dia a dia, da vida, normal. É importante sabermos desfrutar das coisas boas que a vida nos proporciona para aproveitar estes momentos felizes, mas apreender esta felicidade não existe, ela é tão inconstante quanto nós. Mas, algumas pessoas, têm o dom de perpetuar suas tristezas, manejar os acontecimentos para que a angustia se instaure.

Mudando de assunto, volto a falar da fantasia. Assisti há pouco tempo, pela segunda vez, o filme AS PONTES DE MADSON, é um filme muito bonito e com uma mensagem fantástica. A protagonista tem um casamento estável e rotineiro, com um bom homem. Um casal de filhos crescidos. O fato de ser um homem bom não segura a relação, haviam insatisfações dentro desta estabilidade que eram subentendidas e que só se revelaram para ela com o aparecimento de um fotógrafo. Com este teve um caso de quatro dias, e pelo que viveram julgaram ser o grande amor da vida, um do outro. Diante da escolha que se impôs, ela optou pela família. E passou o resto da vida com a fantasia do amante na cabeça. O que é uma fantasia? Que força ela exerce sobre nós? Se ela tivesse optado pelo fotógrafo ele iria fazer parte da rotina, surgindo todas as dificuldades que esta impõe, ia começar a ver seus defeitos gritantes e os problemas de convivência normal entre duas pessoas. E aí eu questiono...é possível competir com a fantasia? Não seria melhor deixá-la no lugar de fantasia? Ou será que devemos mesmo vivê-las e dar boas vindas ao paraíso e inferno do mundo real.

No clip da música da Marisa Monte “Amor I Love You” ela retrata um pouco disso. Dois velhinhos casados há muitos anos, e cada um mantém em suas lembranças a fantasia de um outro amor. Talvez eles precisassem disso para suportar a rotina. Não se assustem, de certa forma isso é até saudável, desde que um não tenha acesso a fantasia do outro e essa fantasia permaneça no lugar de fantasia, o lugar que lhe cabe.

A fantasia gera a angustia e dentro de uma relação muitas vezes a angustia gera a fantasia. Muitos não sabem lidar com estas facetas que a vida traz, isso acarreta outros sentimentos: CULPA. Um fantasma devastador que te impede de se deliciar com suas fantasias. Assistam o clipe da Marisa Monte(Amor I Love You) e sejam felizes, afinal o que seria do ser humano sem suas angustias e fantasias?

6 comentários:

Jacqueline disse...

É exatamente assim que nos comportamos. Parece que temos que ter algo para nos entreter e de preferência que sejam “problemas” para resolver, se envolver ou simplesmente para se queixar. Isso de certa forma passa a idéia que a felicidade é efêmera e a infelicidade permanente, e que é assim que preferimos viver. Uma fantasia é mais gratificante, o conforto estável sugere acomodação.
Outro dia assisti a uma palestra do Flávio Gicovate, ele dizia que as relações mais conflituosas eram as que tinham mais sexo, isso em resposta a perguntas que foram feitas que se referiam a pessoas que se amavam, que estavam bem financeiramente e tudo mais estava bem, mas que a vida sexual estava empobrecida. Parece que assim como nas novelas a tranqüilidade não atrai, não encanta.
Acredito que funcionamos de um modo que não entendemos. Somos atores, nos envolvemos tanto em nossos papeis e não lemos o ‘script’. Ter a consciência de quem somos e porque somos como somos pode facilitar nossa busca em resposta às nossas atitudes confusas, isso quando buscamos e queremos nos conhecer. A nossa grande ignorância acerca do que nos tornamos nos impede de ter clareza e de não sermos contraditórios.
De fato viver implica em sofrimento e o nosso aprendizado é atravessar a vida vivendo, porque enfim, a “normalidade” não cabe a ilusão da ausência completa de tormentos.

Bruno Vichi disse...

Leila, muito bem apontadas as questões de seu texto e os comentários trazidos posteriormente pela Jaqueline.

Ciência e Literatura de outro mundo disse...

Leila,

Lembra que um dia fui escritor?! Pois é conseguia escrever literatura justamente quando era triste e raivoso e sofria muito. Hoje não consigo mais escrever literatura, só ciência. E quando escrevo outra coisa (roteiro para filme, etc) acaba sempre tendo um tom de ironia.

Talvez seja um traço neuroquímico: a angústia libera os centros criativos do cérebro.

Bom texto. Abraço. Fabiano

Leila Viana disse...

Jaque, o que seria de nós sem nossos conflitos e angustia? A felicidade seria algo até sem sentido...O ser humano é um "todo" que se compõe das tristezas e alegrias, amores e desamores, o difícil é encontrar o equilíbrio...Na verdade a normalidade(se é que ela exite) é muito pouco interessante.

Leila Viana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leila Viana disse...

Fabiano, lembro muito de quando era escritor e gostava das coisas que escrevia, tenho seus livros e suas cartas também...
A cantora Marina Lima disse que só consegue compor na fase da depressão...e assim funciona o ser humano, sendo algo neuroquímico ou não.
Bj.Leila